Trauma e Superação
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Psicoterapia tem efeito neurobiológico sobre os traumas

Na cultura chinesa, a palavra trauma (chuangshang) é derivada da justaposição de criação (chuang) e dor (shang), podendo ser compreendida como oportunidade de aprender com o dano. Reafirmando a crença oriental, um primeiro estudo do gênero no Brasil comprovou os efeitos neurobiológicos da superação de trauma psicológico por meio da psicoterapia. A iniciativa avaliou o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em policiais paulistas atacados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) há cinco anos. Três instituições de ensino estiveram envolvidas na pesquisa: a mineira Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Faculdade de Ciências Médicas Santa Casa de São Paulo. A análise foi conduzida pelo psicólogo clínico Julio Peres, doutor em neurociências e comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, como alvo de estudo do seu pós-doutorado. De maneira inédita na literatura científica, foi evidenciado que o córtex médio pré-frontal tem um papel crítico no desenvolvimento da resiliência (capacidade de atravessar adversidades e voltar à qualidade de vida satisfatória).

A pesquisa teve início em agosto de 2006 e seus resultados foram divulgados recentemente. Como voluntários, foram selecionados 36 policiais que sofreram a primeira onda de ataques, a mais severa, e passaram pelo mesmo trauma de perda de colegas. Agentes, portanto, com a mesma idade da memória do episódio e que, além disso, não tinham comorbidades (coexistência de transtornos e doenças) ou mesmo faziam uso de medicamentos. Nesse ponto se encontra o maior diferencial da pesquisa: uma amostra homogênea, um controle refinável de variáveis. Até o momento, a maioria dos estudos existentes comparou indivíduos que têm memória traumática diferente, o que pode interferir nos resultados.

Peres explica que o TEPT é o único transtorno que se pode conhecer a causa e por isso é possível agir na desconstrução do trauma. O mal provoca um alerta contínuo na pessoa, “uma maior adrenalina para que não seja mais pego de surpresa”, evidencia o pesquisador. Esse estado de alarme pode provocar insônia, irritabilidade, limitações profissionais e pessoais, além de pensamentos intrusivos, aqueles que você não quer, mas invadem a mente. “O TEPT tem risco três vezes maior para emersão de comorbidades, como Transtorno Depressivo e Transtorno Somatoforme (sintoma físico sem base médica constatável). Se não for cuidado, pode ampliar o sofrimento dos indivíduos e familiares”, complementa Julio Peres.

Entre as várias conclusões do estudo, a primeira delas é que a resiliência não é uma aptidão natural exclusiva de algumas pessoas. A capacidade de superar adversidades pode ser aprendida ou mesmo construída. Como? Por meio do acompanhamento psicoterápico tão logo o trauma tenha ocorrido. “É uma relação inversamente proporcional: melhor a narrativa do indivíduo sobre o trauma, melhor sua qualidade de vida. Ele vai ressignificar o fato buscando um aprendizado. Muitas vezes, ele passa a contar o evento de outro jeito, mais leve, talvez até cômico”, detalha Peres.

Ainda segundo as conclusões observadas, não só é possível superar o trauma por meio da psicoterapia, como há ainda a possibilidade de que a experiência dolorosa favoreça benefícios adicionais na vida do indivíduo em comparação com a que ele tinha antes da ocorrência traumática. O crescimento pós-trauma envolve aprendizados como abertura para novas experiências, valorização da vida, melhor relação interpessoal, resgate da religiosidade e descoberta de força e coragem para superação de problemas. Outra descoberta foi que entre os policiais resilientes as características mais importantes para enfrentar o episódio foram a autoeficácia, a empatia e o otimismo, além da religiosidade.

Situações extremas 

Perda de entes queridos, acidentes, violência, conflitos interpessoais graves, enfermidades e catástrofes naturais são episódios que podem ocorrer com qualquer pessoa. Estudos epidemiológicos revelam que a massiva maioria da população sofreu ou sofrerá um ou mais eventos potencialmente traumáticos, que podem levar a um Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Para evitar essas ocorrências, Julio Peres acredita que não há outro caminho senão o das ações governamentais para minimizar a violência no Brasil.

“Grande parte dos traumas é causada pelos próprios homens”, explica o pesquisador, que ainda sugere que a mídia seja utilizada na promoção de comportamentos saudáveis. Para ele, o atendimento especializado a populações de risco, como bombeiros, policiais e médicos que trabalham na emergência, é uma das iniciativas mais importantes. “O mundo subjetivo que construímos a partir de eventos dolorosos pode caracterizar o trauma ou não. Vivemos numa sociedade que tende a biologizar (estudar algo à luz da biologia) tudo. Trabalhar o subjetivo faz diferença no objetivo”, complementa.

Grupo criminoso

O Primeiro Comando da Capital (PCC) é um grupo criminoso paulista que surgiu na década de 1990. É considerado o maior e mais organizado do país. A onda de violência, ocorrida em 2006, teve início em 12 de maio. Os ataques tiveram origem em São Paulo, mas no dia seguinte tomaram conta de outros estados como Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Bahia. Rebeliões em presídios, ônibus queimados, ataques a departamentos de polícia, Corpo de Bombeiros e agências bancárias foram algumas das ações do comando. O principal alvo foi a Polícia Militar do Estado de São Paulo. Oficialmente, 154 pessoas morreram, sendo 44 policiais e agentes de segurança.

O PASSO A PASSO DA PESQUISA

1 – Dois exames de ressonância magnética funcional foram realizados em todos os policiais, com espaço de 40 dias entre
eles, comoobjetivode verificar as variações na atividade cerebral relacionadas à recuperação de memórias traumáticas antes e depois da psicoterapia. Os participantes foram divididos em três grupos: o primeiro com policiais traumatizados submetidos à psicoterapia; o segundo compoliciais traumatizados que não foram submetidos à psicoterapia; e o último com policiais
não traumatizados (resilientes).

2 – Durante o intervalo de 40 dias, o grupo 1 passou por um programa psicoterápico direcionado à superação traumática. A terapia ajudou os policiais a construírem a resiliência, apresentando queda de 37% dos sintomas da TEPT e com resultados de expressões neurais semelhantes ao grupo 3 (resilientes).

3 – Assim como os policiais resilientes, a segunda neuroimagem funcional do grupo 1 revelou um aumento da atividade do córtex médio pré-frontal (mPFC) simultaneamente a uma queda significativa da amígdala durante o resgate de memórias traumáticas. De acordo com Júlio Peres, essa parte do córtex é responsável pela categorização de experiências,
aprendizado e releitura de traumas, enquanto a amígdala responde pelas emoções negativas.

4 – Daí a atenuação dos sintomas TEPT. Já o grupo 2, sem tratamento, teve piora dos sintomas e apresentou emambos os exames aumento na atividade da amígdala e diminuição na atividade do mPFC. O que significa uma não superação do trauma.