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Pscicoterapia pode ajudar mulheres traumatizadas após aborto

“É claro que não vou sair por aí com uma plaquinha dizendo que eu fiz aborto, mas não tenho problema nenhum com isso”. É assim que a produtora Maria (*) descreve a interrupção de uma gravidez quando tinha 19 anos. Hoje, quatro anos depois, a jovem – que pede para não ter seu nome divulgado, pois o namorado da época não soube da gestação – diz que para ela essa foi uma “decisão prática”.

Segundo Maria, o aborto foi feito logo no início da gravidez e entre a descoberta e a interrupção apenas uma semana se passou. “Eu fiz questão que fosse rápida, depois de três meses você já entra em outra fase e, se espera tanto, é porque tem dúvida e se tem dúvida, é melhor não fazer. Assim não tem culpa, não tem remorso”, diz.

A produtora conta que o procedimento pelo qual passou foi semelhante a uma curetagem e foi feito em um local “lindo”, em um bairro nobre zona sul de São Paulo. “Foi o melhor atendimento médico que já recebi na vida”, completa. De acordo com Maria, ela pagou R$ 2 mil e chegou até a clínica por indicação de uma amiga.

Clínica de luxo

“Lá eles só atendem por indicação, têm um banco de dados e consultam o nome da pessoa que te indicou, só depois você é encaminhada para os médicos que fazem o aborto”, explica. Ainda de acordo com a jovem, ela optou por abortar porque, na época, não namorava o “amor da sua vida”, teria complicações com os pais e não tinha condições financeiras para criar um filho. “Eu estava no começo da minha carreira, a minha vida ia mudar, ela não ia acabar, mas não seria o que é hoje e eu gosto muito de como ela é hoje”.

Maria disse que não teve nenhum tipo de complicações e nem traumas após o aborto. Ela conta que deu entrada na clínica as 8h, saiu 12h e as 14h já estava trabalhando. “Eu sou a favor [do aborto] e pude pagar uma clínica boa”, mas reconhece que deve ser difícil em outras condições. “É uma pressão psicológica muito grande, nessa hora que você tem que ter mais sangue frio para saber o que fazer”, diz.

Casos mal sucedidos podem levar ao trauma, diz especialista

Entretanto, nem todos os casos de aborto têm resultados como o de Maria. Em geral, a interrupção da gravidez pode levar as mulheres ao chamado estresse pós-traumático, como explica o psicólogo clínico e doutor em neurociências e comportamento pela USP (Universidade de São Paulo), Julio Peres.

Segundo o especialista, o trauma psicológico, que pode ser ocasionado pelo aborto, traz sintomas como insônia, memórias traumáticas, pensamentos intrusivos, isolamento e vários outros sintomas que podem se assemelhar a depressão, entre outros. Peres explica ainda que se esses problemas não forem tratados podem ter consequências graves, que “afetam tanto o indivíduo como sua família, trabalho e amigos, configurando níveis mais críticos de sofrimento e limitação”.

O aborto pode ocorrer de duas formas, espontâneo, quando a mulher perde o bebê, ou o provocado, quando ela interrompe a gravidez por opção, como no caso de Maria. De acordo com Peres, nos dois casos pode haver trauma, no primeiro ela “vive o trauma como inesperado-efeito surpresa, ela se vê num mundo caótico”, afirma o psicólogo. No segundo caso, as mulheres que procuram o tratamento têm “uma culpa muito grande, como arrependimento”.

Esses traumas podem ser tratados com psicoterapia. No aborto espontâneo, a mãe já criou uma história e expectativas com o bebê, por isso, precisa se despedir dele. Já no provocado, o tratamento “é relacionado à aliança de aprendizado com o q aconteceu” explica. A psicoterapia visa ajudar a mulher a se livrar da culpa. “O tratamento é de aliança de aprendizado com essa dor”, esclarece Peres.