Lidar com a Morte É Terrivelmente Angustiante, Lento e Dolorido…

Relato de Clarice, 44 anos, jornalista, casada e mãe de uma filha.

Eu tinha 16 anos quando meu pai cortou o próprio pescoço. Nenhuma carta. Nenhuma declaração. Nenhum adeus. Muitas fofocas.

o pequena como era Campo Grande em 1989 foi difícil conviver com o estigma de ser a filha do suicida com a mãe possivelmente adúltera. Lidar com a morte é terrivelmente angustiante, lento e dolorido. Entender o suicídio é pior ainda, e digo isso como alguém que passou 19 anos tentando. Deitei em muitos divãs, e dependente dos profissionais da saúde a quem eu recorria compulsivamente… Eu, que no passado havia viajado à Europa e aos Estados Unidos algumas vezes, de repente não conseguia mais ficar dentro de um avião. Um medo irracional me invadia! Logo no iní-
cio da psicoterapia, percebi que tinha dificuldade de emitir minhas opiniões e sempre buscava o aval para o que dizia. As metas propostas, semana após semana, incentivaram-me cada vez mais a me libertar do medo. Isso foi ocorrendo: a autoestima foi aumentando e aquela vontade de procurar novos médicos para as minhas somatizações foram desaparecendo.


Atualmente tenho uma boa autoestima, meus diálogos internos são saudáveis e não mais pessimistas. Faço minhas atividades com independência, estou vinculada à saúde e já faço voos domésticos, sem medo. Até pequenas aulas eu passei a dar no meu grupo religioso! Aquela vontade de queixar de tudo e de mim própria também diminuiu consideravelmente. Espero em breve viajar para o exterior e enviar um belo cartão ao Dr. Julio. Os problemas psicossomáticos ainda acontecem esporadicamente, mas, logo me levanto. Digo para mim mesma, um passo de cada vez, e aos 68 anos de idade não espero milagres, mas melhoras contínuas. Agradeço de coração a dedicação em me ajudar a me encontrar… Os problemas ainda existem em torno de mim, mas já não me atingem tanto, não mais me vitimizo; ao contrário, reconheço as minhas
capacidades! Obrigada.