Dr. Julio Peres fala em entrevista sobre a superação de momentos difíceis
30 de agosto de 2018
Dr. Júlio Peres fala sobre quase morte no Programa do Jô
30 de agosto de 2018

Impacto da psicoterapia no cérebro

Texto escrito pelo Dr. Julio Peres

Há diferenças entre como as pessoas traumatizadas e não traumatizadas processam e categorizam as suas experiências?

Em contraponto ao que o filósofo Friedrich Nietzsche afirmou, “o que não mata, fortalece”, o trauma, quando não tratado, pode adoecer severamente grande número de pessoas, em vez de fortalecê-las. Há uma relação significativa entre trauma psicológico e o desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que contempla o aparecimento de três grupos de sintomas: revivescência do trauma (memórias traumáticas, pesadelos); evitação/entorpecimento (distância afetiva, anestesia emocional) e hiperestimulação autonômica (estado de alerta, irritabilidade, insônia). Na população em geral, a prevalência de eventos traumáticos pode alcançar 90% (perdas de entes queridos, acidentes, hospitalizações, violências, etc.). A prevalência do TEPT é em torno de 8%, enquanto o TEPT parcial (TEPTp) pode chegar a aproximadamente 30%.

O impacto do crime tem se tornado um problema de saúde pública, particularmente nas áreas urbanas, e é agora uma das mais frequentes causas de morte na população em diversos países. A incidência de eventos estressores ligados à violência urbana é crescente. Atualmente, as principais ocorrências potencialmente traumáticas notificadas nas capitais brasileiras são: tentativa de homicídio, lesão corporal, estupro, atentado violento ao pudor, sequestro, roubo e furto.

Nas duas últimas décadas, centenas de estudos mostraram que intensas e esmagadoras experiências podem disparar diferentes respostas, enfraquecendo o conceito de uma “reação universal ao trauma”. A caracterização de um evento como traumático também depende do processamento perceptual de cada indivíduo. Conforme o dramaturgo e estudioso da religião John Milton nos ensina, a mente é ágil e em si “pode fazer do céu um inferno e do inferno um céu”, e, por isso, precisa de orientação para que esta agilidade esteja a favor do bem-estar. É o que também observamos nos recentes achados neurocientíficos: as memórias carregadas de emoção não são estáticas e lembrar compreende a reconstrução de informações coerentes por meio de fragmentos disponíveis de modo que o conjunto faça sentido. Assim, o passado é flexível e modifica-se com novas interpretações das recordações e reexplicações do que aconteceu. A integração dos traços sensoriais das memórias traumáticas em narrativas terapêuticas estruturadas é um dos principais desafios para as Psicoterapias aplicadas às vítimas de trauma e os indivíduos com TEPTp exigem o mesmo nível de cuidados terapêuticos.

Para ver a matéria na íntegra: Clique aqui