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A difícil missão de recomeçar

No sofá da pequena casa de dois cômodos numa vila de ladeira em Realengo, Roberta Rocha vê televisão. Os olhos ficam vidrados no noticiário o dia inteiro. A adolescente de 13 anos não quer perder nenhuma informação sobre a tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira. Roberta é uma das vítimas do atirador. Ao tentar fugir da sala de aula, levou uma bala nas costas, a 1 centímetro da coluna, que saiu pela barriga sem afetar nenhum órgão. Os pais da estudante, o pedreiro Nilson e a dona de casa Veronice, falam em milagre. Estão felizes porque a filha está viva. Mas se preocupam com os efeitos que a tragédia pode causar. No princípio, Roberta disse que queria trocar de escola. Depois decidiu ficar. Ela adora a Tasso da Silveira, considerada a melhor da região, onde estuda há quatro anos. Mas não sabe como vai lidar com as lembranças. “Eu vi amigos da turma sendo assassinados e quase fui morta também. Cheguei a ver o revólver apontado para o meu rosto, mas não tinha mais bala. Quando ele foi recarregar, eu fugi, mas ele atirou nas minhas costas quando eu já estava na porta”, diz.

Como superar um trauma como este? Os especialistas indicam uma volta vagarosa à rotina para enfrentar o trauma e a dor. Além da atividade escolar, exercícios físicos provocam sensação de bem-estar. Aceitar ajuda, estreitar laços com a família e a comunidade também são aconselhados. Para o psiquiatra americano Timothy Brewerton, especialista em pós-trauma da Universidade da Carolina do Sul, atividades sociais voluntárias são bastante indicadas. Elas teriam o poder de dar novo significado à vida. Brewerton, que trabalhou com vítimas do massacre da escola de Columbine, nos Estados Unidos (em 1999), diz que é preciso ter tempo e paciência. “Não há fórmula para essa melhora. Para crianças, é preciso um equilíbrio entre o estímulo para que elas expressem o que sentem e o respeito ao silêncio para que elaborem o que estão vivendo.”

Bruna Lopes dos Santos, de 12 anos, também aluna da escola, não foi ferida – fisicamente. Mas seu coração está “muito machucado”, como ela mesma afirma. Entre as crianças que morreram estava sua vizinha e melhor amiga: Géssica Guedes Pereira, um ano mais velha. Bruna estava no 2o andar, para onde se dirigia o assassino quando foi atingido pela polícia. A menina fala baixo e de forma monossilábica sobre o que aconteceu. Parece apática, o olhar perdido. Ainda não decidiu se volta para a Tasso da Silveira. “Acho que só entro lá de novo se souber que tem um policial na porta o tempo todo.” Na casa de Géssica, os pais e as irmãs estão chocados. Michelly, de 18 anos, não conseguiu sequer entrar no quarto da irmã. A mãe, Sueli, chora de saudade. “Não quero dar as coisas dela para ninguém. Busquei o que ela deixou na escola, guardei tudo nas gavetas. Todos os dias, às 2 da tarde, fico com a impressão de que vou ouvir o portão abrindo e ela vai chegar em casa, falando alto, como sempre.” As duas famílias estão fazendo acompanhamento psicológico.

“Se eu ficar naquela escola de novo, vou me assustar com qualquer barulho” 
MARIA BEATRIZ MORAES, de 10 anos

O psicólogo Julio Peres, pós-doutorado em neurociências pela Universidade da Pensilvânia, diz que é importante que as crianças voltem a frequentar a escola e falem com pessoas próximas sobre o que ocorreu. “É normal pais quererem proteger seus filhos. Mas o efeito do silêncio é muito pior. O trauma não é processado e o evento continua vivo no universo subjetivo da criança.” Chefe da psiquiatria infantil da Santa Casa da Misericórdia, no Rio de Janeiro, Fábio Barbirato diz que é preciso voltar à escola para superar o trauma. “O colégio é a segunda casa de uma criança. Ela se sente protegida lá. Retomar essas atividades, de forma controlada, é importante para elas se sentirem seguras novamente.”

Para essa volta, a escola está sendo “reinventada”, segundo a secretária municipal de Educação, Claudia Costin. Antes mesmo de a tragédia completar uma semana, uma reforma foi iniciada. As paredes ganharam novas cores. Nas duas salas em que morreram os adolescentes não haverá mais aulas regulares. Elas foram transformadas em ambiente de leitura e laboratório de ciências, com outros móveis e cores mais vivas. Nas primeiras semanas não haverá aula formal, só atividades em grupo e brincadeiras orientadas.

Ao andar pelas ruas do bairro, na Zona Oeste do Rio, ouve-se um mosaico de conversas, todas sobre o crime em que morreram 12 jovens dentro da própria escola. Das últimas notícias policiais a informações sobre vítimas que tiveram alta, passando por comentários de um povo abismado com o ocorrido, Realengo ainda vive o terror. Para cuidar da comunidade traumatizada, a prefeitura do Rio escalou um batalhão de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. Desde o dia seguinte à tragédia, 600 profissionais das secretarias municipais de Educação, Saúde e Assistência Social estão visitando todas as famílias de alunos da escola. Do objetivo inicial – confortar e detectar a necessidade de cada uma –, passou-se ao tratamento propriamente dito, com um psicólogo de referência para 28 famílias de situação mais grave e uma clínica local apoiando outras crianças. Professores também estão recebendo apoio e sendo preparados para lidar com a volta dos estudantes – prevista para acontecer, progressivamente, a partir desta semana.

O objetivo principal é tentar impedir que alunos e famílias das vítimas sofram de estresse pós-traumático, um tipo de transtorno de ansiedade comum nas vítimas da violência urbana, que pode causar o amortecimento emocional, síndrome de pânico e depressão. “O momento atual é de luto, tristeza e apatia naturais. Só depois de 40 a 60 dias é possível começar a detectar quem sofre de estresse pós-traumático”, afirma a psiquiatra Pilar Belmonte, coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que está à frente do trabalho. Além desse acompanhamento, toda a rede municipal de ensino terá reuniões com direção, professores, pais e alunos para discutir as necessidades das escolas – incluindo segurança. “Nosso sentimento é que poucas crianças vão pedir transferência”, diz Claudia Costin.

“O colégio é a segunda casa da criança. É importante retomar a sensação de segurança”, diz psiquiatra

Uma delas é Maria Beatriz Moraes, de 10 anos. Ela pediu à mãe, a técnica de enfermagem Lídia Morais, para ser transferida da Tasso da Silveira, onde cursava o 5o ano. No dia da tragédia, ficou trancada na sala, deitada no chão com outros colegas, como pediu a professora. Ouviu tiros, gritos. Viu seu colégio sujo de sangue. “Eu rezei muito para não morrer, porque gosto da minha vida. Se eu ficar lá de novo, vou me assustar com qualquer barulho.” Outra vítima do massacre, Brenda Tavares, de 13 anos, também tem se assustado com barulhos. Ela levou tiros nos braços e sobreviveu. Mas sua irmã gêmea, Bianca, foi baleada na cabeça e morreu. A tia das meninas, Perla dos Reis, conta que Brenda tem chamado o nome da irmã à noite, em um sono pouco tranquilo. “Ela fica quase o tempo todo calada, mesmo nas sessões de terapia. Esperamos que ela volte a ser a menina alegre que era”, diz a tia. Os pais optaram por tirá-la da escola. Brenda ganhou bolsa integral num colégio particular da região.

Embora a perda de um parente seja irreparável, é comum em casos assim que haja algum tipo de indenização financeira. Parentes das vítimas têm sido incessantemente procurados por advogados de todo o país, sugerindo processos contra o Estado. Mãe de Mariana, de 12 anos, morta no atentado, a dona de casa Noeli da Silva Rocha foi a primeira a anunciar publicamente que entrará na Justiça em busca de reparação. “Foi erro de quem? Não foi da escola? Então eles vão ter de me pagar”, disse. A prefeitura do Rio ainda não fala no assunto.

A Justiça brasileira tem ao menos um processo em que vítimas de um ataque semelhante pedem reparação do poder público. O caso ocorreu em janeiro de 2003 na cidade paulista de Taiúva, São Paulo, a 364 quilômetros da capital, dentro da escola estadual Coronel Benedito Ortiz. Um ex-aluno entrou na escola portando um revólver calibre 38, feriu oito pessoas e se matou. Cinco alunos e um funcionário entraram com ação na Justiça de Jaboticabal, em São Paulo. Em setembro de 2005, o Estado de São Paulo foi condenado a pagar indenizações às vítimas por “danos materiais, morais e lucros cessantes (que deixaram de ganhar após o atentado)”. O governo estadual recorreu e o processo segue ainda sem decisão final no Tribunal de Justiça. O juiz do caso, Antônio Roberto Borgatto, considerou que a escola paulista não mantinha segurança que pudesse evitar a entrada do ex-aluno. O Estado argumenta que não ficou comprovada nenhuma omissão de sua parte e que, pelo fato de o atirador ser um ex-aluno, não havia motivos para impedir sua entrada.